Há uma fera adormecida. Uma fera que deixa-se cair...
Era assim: havia dias de inspiração tão intensa, que a mente não conseguia definir os limites, e as mãos trabalhavam furiosamente sobre tintas e pincéis. Havia dias vazios: sina de qualquer artista.
Aquele se insinuara um dia vazio, porém as idéias tomaram lugar, e o espaço em branco, tomou forma e cor.
Embora pensasse nas nuances, nas sombras, nas luzes, nas proporções, nos traços; aquele era sempre um momento de paz, o resto do mundo deixava de existir por horas.
Poderia arriscar-se em qualquer outro campo, com o mesmo sucesso, mas nada lhe daria tanta paz como o trabalho de dispor cuidadosamente as cores sobre o branco, moldar mundos em telas.
Era talentosa, e sempre exigente demais. Distante e volúvel, passional e ressentida.
Sariel certa vez mencionara o ressentimento como causa do olhar indecifrável. Insistia em dizer que jamais saberia se o olhar de Nanael era desprezo, altivez, força, coragem, fuga ou ressentimento. Tempos depois decidira-se, e anunciara alto demais:
- É loucura, Nanael! Seu problema é loucura!
Aproximou-se perigosamente de Sariel, insanidade estampada no olhar e no sorriso. Adaga na mão.
- Quem de nós, Sariel?! Acaso julga-se superior demais a ponto de arriscar a todos os outros? Julga-se o supra-sumo da estratégia?!
Perigosamente furiosa e perto, perigosamente magnética. Sariel pensava que não resistiria à influência poderosa de Nanael. Contudo, ela redirecinou a ponta da adaga contra si mesma.
Os fatos sucederam-se tão rapidamente, que qualquer uma das testemuhas jamais saberia as reais intenções de Nanael.
Obviamente os danos seriam tantos, porém, em sua loucura, ela estaria pronta para qualquer coisa. Sabia que não eram corpos físicos em um mundo de matéria.
terça-feira, 26 de maio de 2009
sábado, 16 de maio de 2009
- Quem é esta criança em seus braços, Estela? Deixe-me vê-la, deixe-me vê-la!
Estela abaixou-se, para que o velho - Velho? Não, não era velho, senão na alma. As rugas eram causadas pelos sofrimentos, pelas alucinações e pela fome, não pelo tempo- homem jogado no chão visse a criança. Como de costume, entregou-lhe pão e um copo descartável com leite. Naqueles tempos, era o que ela podia. E mesmo assim, levava uma criança desconhecida nos braços...
As preocupações foram abruptamente interrompidas pela exclamação do homem.
- Ohh...Ela é perfeita! Ela vem das estrelas, Estela! Ela vem das nuvens, ela vem do alto. Ela vem do alto, do Altíssimo...Sim, sim! Não acredita em mim agora, Estela, mas o dia virá, o dia virá. Eu sei, e estou sem beber há uma semana, então eu digo que eu sei, Estela.
Estela meneou a cabeça. Pobre coitado...Caíra em desgraça tão rápido, e antes das garrafas seguidas, antes da loucura, era um gênio. Um astrônomo, até o dia que resolveu partir em busca das estrelas.
Em uma coisa, ao menos, o homem tinha razão: a criança era perfeita na aparência. Permanecera calma por horas, apenas observando o que se passava ao redor. Nenhum gemido, nenhum choro.
- Eu vou adotá-la, Patrício. Vou criá-la.
- Mas quem é esta criança, Estela? Onde a achou? Eu a conheço, sim.
- Eu na...não sei ao certo. Não me lembro. Que mulher não ficaria revoltada ao ver uma criança tão frágil abandonada?!
- Não sabe, não lembra...Eu sei, eu lembro. Eu já conheci uma criatura perfeita, uma vez. Sim, sim, até um de nós cair! Eu caí primeiro, e esperei.
"Nanael, ah, Nanael dos olhares indecifráveis...Sabe, ela foi feita exatemente à semelhança do Uno, no que diz respeito à alma. É o que dizem. Ela nunca errou, nunca. E agora, enlouqueceu. Deve ser a idade. A idade chega até para os anjos, a loucura chega até para os anjos. O que ela quer com a Roda, meu Deus?! Alma antiga, corpo novo, é senda certa para os erros. Ela vai virar escrava da Roda se cair em tentação, ah, ela vai! A perfeição entra em tentação? Não sei, você não sabe, que dia é o batizado? Ah, toda a glória precisa de um nome. Não me diga que se esqueceu disto...Depois o louco sou eu! Que nome dará a ela, Estela?"
Estela arregalou os olhos. Jamais parara para ponderar sobre o limite da insanidade de Patrício, mas aquilo ia longe demais.
- Vitória. - Disse rapidamente, antes de retomar seu caminho.
Estela abaixou-se, para que o velho - Velho? Não, não era velho, senão na alma. As rugas eram causadas pelos sofrimentos, pelas alucinações e pela fome, não pelo tempo- homem jogado no chão visse a criança. Como de costume, entregou-lhe pão e um copo descartável com leite. Naqueles tempos, era o que ela podia. E mesmo assim, levava uma criança desconhecida nos braços...
As preocupações foram abruptamente interrompidas pela exclamação do homem.
- Ohh...Ela é perfeita! Ela vem das estrelas, Estela! Ela vem das nuvens, ela vem do alto. Ela vem do alto, do Altíssimo...Sim, sim! Não acredita em mim agora, Estela, mas o dia virá, o dia virá. Eu sei, e estou sem beber há uma semana, então eu digo que eu sei, Estela.
Estela meneou a cabeça. Pobre coitado...Caíra em desgraça tão rápido, e antes das garrafas seguidas, antes da loucura, era um gênio. Um astrônomo, até o dia que resolveu partir em busca das estrelas.
Em uma coisa, ao menos, o homem tinha razão: a criança era perfeita na aparência. Permanecera calma por horas, apenas observando o que se passava ao redor. Nenhum gemido, nenhum choro.
- Eu vou adotá-la, Patrício. Vou criá-la.
- Mas quem é esta criança, Estela? Onde a achou? Eu a conheço, sim.
- Eu na...não sei ao certo. Não me lembro. Que mulher não ficaria revoltada ao ver uma criança tão frágil abandonada?!
- Não sabe, não lembra...Eu sei, eu lembro. Eu já conheci uma criatura perfeita, uma vez. Sim, sim, até um de nós cair! Eu caí primeiro, e esperei.
"Nanael, ah, Nanael dos olhares indecifráveis...Sabe, ela foi feita exatemente à semelhança do Uno, no que diz respeito à alma. É o que dizem. Ela nunca errou, nunca. E agora, enlouqueceu. Deve ser a idade. A idade chega até para os anjos, a loucura chega até para os anjos. O que ela quer com a Roda, meu Deus?! Alma antiga, corpo novo, é senda certa para os erros. Ela vai virar escrava da Roda se cair em tentação, ah, ela vai! A perfeição entra em tentação? Não sei, você não sabe, que dia é o batizado? Ah, toda a glória precisa de um nome. Não me diga que se esqueceu disto...Depois o louco sou eu! Que nome dará a ela, Estela?"
Estela arregalou os olhos. Jamais parara para ponderar sobre o limite da insanidade de Patrício, mas aquilo ia longe demais.
- Vitória. - Disse rapidamente, antes de retomar seu caminho.
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