Há uma fera adormecida. Uma fera que deixa-se cair...
Era assim: havia dias de inspiração tão intensa, que a mente não conseguia definir os limites, e as mãos trabalhavam furiosamente sobre tintas e pincéis. Havia dias vazios: sina de qualquer artista.
Aquele se insinuara um dia vazio, porém as idéias tomaram lugar, e o espaço em branco, tomou forma e cor.
Embora pensasse nas nuances, nas sombras, nas luzes, nas proporções, nos traços; aquele era sempre um momento de paz, o resto do mundo deixava de existir por horas.
Poderia arriscar-se em qualquer outro campo, com o mesmo sucesso, mas nada lhe daria tanta paz como o trabalho de dispor cuidadosamente as cores sobre o branco, moldar mundos em telas.
Era talentosa, e sempre exigente demais. Distante e volúvel, passional e ressentida.
Sariel certa vez mencionara o ressentimento como causa do olhar indecifrável. Insistia em dizer que jamais saberia se o olhar de Nanael era desprezo, altivez, força, coragem, fuga ou ressentimento. Tempos depois decidira-se, e anunciara alto demais:
- É loucura, Nanael! Seu problema é loucura!
Aproximou-se perigosamente de Sariel, insanidade estampada no olhar e no sorriso. Adaga na mão.
- Quem de nós, Sariel?! Acaso julga-se superior demais a ponto de arriscar a todos os outros? Julga-se o supra-sumo da estratégia?!
Perigosamente furiosa e perto, perigosamente magnética. Sariel pensava que não resistiria à influência poderosa de Nanael. Contudo, ela redirecinou a ponta da adaga contra si mesma.
Os fatos sucederam-se tão rapidamente, que qualquer uma das testemuhas jamais saberia as reais intenções de Nanael.
Obviamente os danos seriam tantos, porém, em sua loucura, ela estaria pronta para qualquer coisa. Sabia que não eram corpos físicos em um mundo de matéria.
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